A minha avó ensinou-me muitas coisas, entre elas, das que considero mais valiosas: ensinou-me a mentir.
Peço desculpa se o leitor estava à espera de sabedoria, tradições ou resiliência, mas saber mentir foi, de facto, um ensinamento que levei para a vida.
Não estou a falar de manipulações ou perversidades; aprendi as chamadas “mentiras para o bem”.
Tudo começou com uma sopa da pedra. A minha tia fê-la para nos receber, a mim e à minha avó. Foi de propósito comprar os enchidos, colheu os vegetais da sua horta e, pelo orgulho com que mexia aquele caldo, diria que também matou o porco.
Era um dia frio, a casa cheirava a comida, a lareira estava acesa e a mousse de chocolate que tinha avistado no frigorífico ajudava a suportar a constante gabarolice da minha tia em relação à sua sopa.
Estavam reunidas todas as condições para uma ótima refeição. A minha tia serviu-me, depois à minha avó, e à primeira colherada percebi que aquela sopa estava demasiado literal, já que sabia a pedra. Apesar da tenra idade que tinha, lembro-me, ainda hoje, que não se tratava de um sabor que passasse despercebido através de técnicas milenares como respirar pela boca ou beber água logo a seguir. Era um sabor amargo, enjoativo, que se sentia ao engolir e ficava.
Rapidamente percebi que tinha duas hipóteses: partir para a segunda colherada, arriscando-me a regurgitar o pequeno-almoço perante os meus familiares, ou partir o coração da minha tia e dizer-lhe que aquela sopa, que preparou com tanta confiança, cuidado e carinho, sabia a um leite azedo que uma vez bebi sem querer.
Para minha surpresa, a minha avó e a minha tia conversavam enquanto comiam aquela sopa como se se tratasse de um Boeuf Bourguignon ou um Ratatouille (assumo que todas as comidas em francês são deliciosas).
O problema estava em mim e, assim que cruzei o olhar com a minha avó, ela percebeu o meu pedido de socorro. Acabando o seu prato, a minha tia foi meter mais acendalhas na lareira, criando tempo e espaço para a minha avó me sussurrar ao ouvido:
— Não gostaste?
Abano a cabeça como o “não” mais certo da minha vida.
— Não vais dizer isso; vais dizer que está boa, mas que não aprecias sopa da pedra, e sorris.
Ora, se eu nunca tinha provado esta sopa, a minha avó acabara de me pedir para mentir, fornecendo-me métodos para o fazer eficazmente.
A minha tia voltou e, por mais que eu quisesse prolongar aquele silêncio mortífero que se estava a criar devido à minha falta de coragem, a minha avó deu-me a deixa, como quem empurra alguém de uma prancha de cinco metros para uma piscina:
— Não comes?
Engulo em seco e digo timidamente:
— Como… Quer dizer, não. Porque… quer dizer… está boa, é boa…, mas… eu não… não aprecio sopa da pedra.
Voltou o silêncio. Eu só pensava na minha possível má educação e interpretação, já que me esqueci de sorrir. A minha avó ajuda-me:
— Ah, pois. E comeste bastante ao pequeno-almoço.
(Eu bebi um mero leite com chocolate.)
Preparei-me para críticas, insultos e olhares, e depois percebi que estava apenas a ser pessimista quando a minha tia me responde:
— Querida, sem problema! Eu tenho aqui massada de peixe, que fiz ontem, mas ainda está boa. Podes comer, em vez da sopa.
Uma tensão enorme saiu de dentro de mim; comer aquela sopa estava cada vez mais a assemelhar-se a uma prática de tortura medieval. A minha avó pisca-me o olho.
Agora, ao escrever, percebo que eram outros tempos, quando para receber uma criança existiam dois pratos no menu: sopa da pedra e massada de peixe. Nem um hambúrguer? Um bifinho? A sorte é que eu não era esquisita.
Nesse dia percebi que nem todas as mentiras servem para magoar os outros; algumas, pelo contrário, são uma forma imperfeita de carinho.
A minha técnica de omissão de factos foi-se aperfeiçoando com o tempo e com a ajuda da minha avó, que atualmente continua extremamente inteligente, mas já não consegue mentir com todos os dentes, porque já não os tem.
Podia continuar a elogiar a minha avó, a dizer o quão importante foi e é para mim, mas ela sempre detestou lamechices. Por isso, digo que mal sinto a sua falta, que pouco do que eu sou hoje se deve a ela e que são raras as memórias nossas que guardo.
E assim se vê que a minha avó criou uma excelente mentirosa.