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FDS

Não sei o que é que estavas a pensar que seria esta secção, mas são apenas coisas que faço ao fim de semana, que como dá para perceber, têm apenas a minha direção criativa.

Toca numa peça para a ver melhor

Voz da minha terra

Editorial Writing · Dia dos avós

A minha avó ensinou-me muitas coisas, entre elas, das que considero mais valiosas: ensinou-me a mentir.

Peço desculpa se o leitor estava à espera de sabedoria, tradições ou resiliência, mas saber mentir foi, de facto, um ensinamento que levei para a vida.

Não estou a falar de manipulações ou perversidades; aprendi as chamadas “mentiras para o bem”.

Tudo começou com uma sopa da pedra. A minha tia fê-la para nos receber, a mim e à minha avó. Foi de propósito comprar os enchidos, colheu os vegetais da sua horta e, pelo orgulho com que mexia aquele caldo, diria que também matou o porco.

Era um dia frio, a casa cheirava a comida, a lareira estava acesa e a mousse de chocolate que tinha avistado no frigorífico ajudava a suportar a constante gabarolice da minha tia em relação à sua sopa.

Estavam reunidas todas as condições para uma ótima refeição. A minha tia serviu-me, depois à minha avó, e à primeira colherada percebi que aquela sopa estava demasiado literal, já que sabia a pedra. Apesar da tenra idade que tinha, lembro-me, ainda hoje, que não se tratava de um sabor que passasse despercebido através de técnicas milenares como respirar pela boca ou beber água logo a seguir. Era um sabor amargo, enjoativo, que se sentia ao engolir e ficava.

Rapidamente percebi que tinha duas hipóteses: partir para a segunda colherada, arriscando-me a regurgitar o pequeno-almoço perante os meus familiares, ou partir o coração da minha tia e dizer-lhe que aquela sopa, que preparou com tanta confiança, cuidado e carinho, sabia a um leite azedo que uma vez bebi sem querer.

Para minha surpresa, a minha avó e a minha tia conversavam enquanto comiam aquela sopa como se se tratasse de um Boeuf Bourguignon ou um Ratatouille (assumo que todas as comidas em francês são deliciosas).

O problema estava em mim e, assim que cruzei o olhar com a minha avó, ela percebeu o meu pedido de socorro. Acabando o seu prato, a minha tia foi meter mais acendalhas na lareira, criando tempo e espaço para a minha avó me sussurrar ao ouvido:

— Não gostaste?

Abano a cabeça como o “não” mais certo da minha vida.

— Não vais dizer isso; vais dizer que está boa, mas que não aprecias sopa da pedra, e sorris.

Ora, se eu nunca tinha provado esta sopa, a minha avó acabara de me pedir para mentir, fornecendo-me métodos para o fazer eficazmente.

A minha tia voltou e, por mais que eu quisesse prolongar aquele silêncio mortífero que se estava a criar devido à minha falta de coragem, a minha avó deu-me a deixa, como quem empurra alguém de uma prancha de cinco metros para uma piscina:

— Não comes?

Engulo em seco e digo timidamente:

— Como… Quer dizer, não. Porque… quer dizer… está boa, é boa…, mas… eu não… não aprecio sopa da pedra.

Voltou o silêncio. Eu só pensava na minha possível má educação e interpretação, já que me esqueci de sorrir. A minha avó ajuda-me:

— Ah, pois. E comeste bastante ao pequeno-almoço.

(Eu bebi um mero leite com chocolate.)

Preparei-me para críticas, insultos e olhares, e depois percebi que estava apenas a ser pessimista quando a minha tia me responde:

— Querida, sem problema! Eu tenho aqui massada de peixe, que fiz ontem, mas ainda está boa. Podes comer, em vez da sopa.

Uma tensão enorme saiu de dentro de mim; comer aquela sopa estava cada vez mais a assemelhar-se a uma prática de tortura medieval. A minha avó pisca-me o olho.

Agora, ao escrever, percebo que eram outros tempos, quando para receber uma criança existiam dois pratos no menu: sopa da pedra e massada de peixe. Nem um hambúrguer? Um bifinho? A sorte é que eu não era esquisita.

Nesse dia percebi que nem todas as mentiras servem para magoar os outros; algumas, pelo contrário, são uma forma imperfeita de carinho.

A minha técnica de omissão de factos foi-se aperfeiçoando com o tempo e com a ajuda da minha avó, que atualmente continua extremamente inteligente, mas já não consegue mentir com todos os dentes, porque já não os tem.

Podia continuar a elogiar a minha avó, a dizer o quão importante foi e é para mim, mas ela sempre detestou lamechices. Por isso, digo que mal sinto a sua falta, que pouco do que eu sou hoje se deve a ela e que são raras as memórias nossas que guardo.

E assim se vê que a minha avó criou uma excelente mentirosa.